As ações pedagógicas no ensino híbrido

O aprendizado híbrido ou blended learning é um modelo da educação formal que mistura momentos on-line e presenciais. A palavra chave aqui para entender o conceito é integração. Ao planejar a aula nesse modelo, o professor precisa estabelecer uma rota de aprendizagem onde os momentos síncronos e assíncronos se convergem. Nas atividades on-line, é necessário oferecer ao aluno meios para acessar o conteúdo, ou seja, é preciso que ele saiba quando, onde, como e com quem vai estudar. Já nas atividades presenciais, a mediação do professor valoriza a interação e aprendizagem ativa, personalizada e reflexiva. (VALENTE, 2014; MORAN, 2015)

Definido o conceito, é hora de desmitificar alguns equívocos sobre essa abordagem que tem ocorrido por aí.

Aulas simultâneas X ensino híbrido

Muitas escolas (principalmente as de alto poder aquisitivo) fizeram um investimento muito alto para transmitir as aulas presenciais para um grupo que está em casa. Formam-se grupos A X B e alternam-se esses momentos de aulas presenciais e aulas transmitidas. Esse modelo é uma resposta emergencial a crise que estamos enfrentando. Contudo, não pode ser considerada aprendizagem combinada (é um termo que gosto mais do que ensino híbrido) porque uma de suas características é atingir alunos com estilos de aprendizagem variados. Então, eu te pergunto, caro leitor: como atingir esses estilos diferentes se estou transmitindo uma aula e ao mesmo tempo, “de olho” no grupo que está no presencial? Isso é desafiador e ao mesmo tempo muito desgastante e a metodologia adotada é a pedagogia transmissiva. Até porque é uma missão de super herói apostar num método ativo com dois grupos em locais diferentes.

Grupo A X B e uso de aplicativos ou plataformas

Algumas redes de ensino têm investido em separar grupos de alunos A e B (ás vezes até C) para as aulas presenciais. O grupo A vai à escola em tempos alternados, enquanto o grupo B faz atividade on-line. No intervalo seguinte, inverte-se os alunos. Essas aulas on-line são transmitidas via WhatsApp, Google Meet, Zoom ou plataformas criadas especificamente para o ensino e aprendizagem. Esses intervalos de tempo podem ser semanais, diários e depende muito de como a proposta foi planejada.

Utilizar tecnologias digitais e alternar grupos não significa que as instituições estão usando um modelo híbrido quando não se muda a metodologia utilizada, pois a força do ensino híbrido é transformar um método transmissivo em interativos, personalizados e reflexivos. Além disso, para implantar o ensino híbrido o corpo docente necessita receber formação continuada sobre educação híbrida e tecnologias digitais. E, no caso do momento atual, as famílias e alunos carecem de informações claras do que se esperam deles nesse novo formato de ensino, tanto nos momentos presenciais, como nos on-line.

 Sei que é uma situação emergencial e que cada um acredita estar fazendo o melhor que pode. Contudo, a fundamentação teórica e prática sobre o que está se propondo é fundamental para não passar a impressão de que se está construindo o avião enquanto todo mundo está dentro dele.

Propiciar o contato com objetos de ensino com as quais o indivíduo se identifique é o caminho para que o aluno
se relacione com o conhecimento, e é justamente essa uma das principais fundamentações do método hibrido de ensino

SILVA (2017)

Características do  modelos de ensino híbrido

Já elenquei acima algumas características dessa abordagem. Nesse tópico, vou explorar um pouco mais:

  • Personalização do ensino:  a utilização de tecnologias digitais  permite  adotar diferentes enfoques para uma mesma situação de aprendizagem, garantindo assim um ensino mais personalizado.
  • Foco de aprendizagem no aluno: proposta de atividades desafiadoras, tais como resolução de problemas, projetos, discussões, atividades práticas com o apoio do professor e em colaboração com os colegas.
  • Sala de aula é apenas mais um cenário da aprendizagem. Nos momentos presenciais, privilegia-se o diálogo, compartilhamento de conhecimentos e esclarecimentos de dúvidas.

  • Há uma descentralização do processo: alunos devem envolver-se ativamente em sua aprendizagem, ou seja, ter um papel mais autônomo: sai de um papel passivo para ocupar um papel de sujeito.
  • O conteúdo e as instruções são elaborados especifica e propositalmente para a disciplina (ROLINDO, et all, 2019).
  • Interperdependência e interpenetração dos ambientes físico e digital, sendo que essa integração deve ser intencionalmente planejada.

O planejamento no ensino híbrido

Ao planejar atividades para um ensino híbrido é preciso lembrar de ações pedagógicas básicas e já conhecidas: a definição de objetivos, a identificação de interesses e necessidades dos alunos, a triagem de conteúdos, as atividades previstas, o nível de desenvolvimento dos alunos (HAYDT, 2011, apud BRITO, 2020) levando em conta o que vale a pena aprender, para que e como fazê-lo (MORAN, 2015).

Brito (2020) sugere a utilização de uma triagem de conteúdos por potencial pedagógico (TCPP), ou seja, o professor deve separar os conteúdos que se adéquem ao presencial ou ao on-line, considerando: o grau de envolvimento e motivação, recursos diferenciados, expectativa de resultados, acompanhamento, inclusão digital, desenvolvimento da autonomia e criatividade e a possibilidade de contato com outras fontes de informações. O autor ainda salienta que ao realizar essa triagem é preciso ir além de especificar o que será trabalhando a distância ou presencial e sim identificar onde o conteúdo se complementa, realizando diversas combinações: presencial-distância; presencial-distância-presencial; distância-presencial; distância-presencial; distância-presencial-distância.

Além de observar a interrelação entre o ambiente presencial e virtual, na fase da TCCP, é preciso estabelecer o papel do professor e do aluno em cada ação pedagógica, pois cada um pode assumir papel distinto: o professor pode ser o de  transmissor, facilitador ou mediador e, o aluno: ouvinte, colaborador  e protagonista.

Após terminar a triagem, Brito (2019) sugere a fase Organização dos conteúdos por ações pedagógicas (OCAP), que é a definição dos recursos pedagógicos, estratégias de abordagens e a criação  de experiências necessárias à aprendizagem. E é nessa etapa que os papéis do docente e do discente salientam-se: dependendo do tema e recurso escolhido, o professor pode ser apenas o transmissor da informação e o aluno, o ouvinte e em outra proposta, o professor ser um mediador e o aluno, o protagonista. Em síntese: os papéis de cada um mudam segundo as necessidades da aprendizagem. Ressalta-se, porém que no ambiente virtual, o papel docente de facilitador e mediador tem maior relevância, pois é preciso ficar claro para o aluno o que fazer e por que fazer. E dependendo da complexidade da atividade, entra nessa equação o como fazer.

Ao se planejar uma aula híbrida, concorda-se com o autor (BRITO, 2019; 2020) que uma “Uma ação pedagógica híbrida é uma ação combinada para se atingir o mesmo resultado esperado da aprendizagem, mas por meio da união das instâncias presencial e a distância”. Portanto, deve-se evitar cair no equívoco de separar os conteúdos por tipos de ações presenciais ou á distância ou até mesmo tipos de recursos didáticos, pois conforme evidenciado no início do texto: é preciso pensar numa onde os momentos síncronos e assíncronos se convergem. E para tanto, sugere-se usar a TCCP ou OCP como novas estratégias no momento de elaborar a aula híbrida. Além disso, pode-se adotar os 4 passos para hibridizar um planejamento:

  • Faça uma triagem de conteúdos a serem trabalhados em sala de aula e no ambiente virtual, após levantamento de necessidades.
  • Estabeleça estratrégias para desenvolver os conteúdos, nos espaços virtual e presencial.
  • Defina os papéis do professor e do aluno, conforme as estratégias estabelecidas.
  • Separe os recursos didáticos, digitais e matérias pedagógicos apropriados.

Pretendi nesse artigo trazer algumas contribuições sobre possíveis ações pedagógicas no ensino híbrido. É algo novo para muitos docentes, mas não podemos perder de visto que as tecnologias digitais não podem ser utilizadas como um fim em si mesmo. É preciso ter um bom planejamento, um excelente suporte técnico, organização, clareza e isso se aplica tanto aos gestores quanto aos professores. Um aspecto que não pode ser negligenciado é a formação de professores e a parceria com as famílias que precisam ser esclarecidas sobre as novas metodologias. Senão, corre-se o risco de utilizarmos velhas práticas utilizando recursos modernos.

Gostou do que leu? Tem algo a sugerir e/ou acrescentar? Comente logo abaixo. 👇🏻👇🏻👇🏻

Quer aprofundar um pouco mais sobre suas ações pedagógicas na utilização do ensino híbrido?

Deixe um comentário